Ao longo do tempo, tenho vindo a
observar os desconcertos do mundo, as divisões que foram criadas no mundo ao
longo do tempo. Hoje as pessoas são julgadas e divididas em várias categorias,
apenas pela sua aparência, cor, estatuto social, maneira de vestir, penteado, o
que calça, como cheira. Tudo serve de pretexto para se dar início a um
julgamento apressado. Mas será que a aparência define um ser humano. Será que
só pelo seu aspecto o conhecemos realmente? Será que parámos para pensar um
segundo, na razão pela qual um individuo se apresenta de uma certa forma? Na
maior parte dos casos não, porque se o tivéssemos feito, ter-nos-íamos
apercebido de que essa pessoa não escolheu a família nem o sítio onde nasceu. Ter-nos-íamos
apercebido de que talvez aquela rapariga que parece invisível para toda a
gente, afinal tem uma história para contar. Ter-nos-íamos apercebido de que
aquela criança rebelde, de que todos chamam de malcriada, está a gritar por
ajuda sem que ninguém a oiça. Ter-nos-íamos apercebido de que aquela rapariga
que todos invejam pelo seu sorriso, está apenas a esconder uma vida de
violência, que a levou a abafar o seu choro na almofada, para que ninguém a
ouvisse. Ter-nos-íamos apercebido de que aquele rapaz que todos julgam por
estar preso, teve uma vida de caos e miséria, que vira a sua mãe ser espancada
todos os dias. Ter-nos-íamos apercebido de que aquele rapaz que finge não ter
medo de nada, nem ninguém passou a vida a ver amigos e familiares a morrerem vítimas
de confrontos com a polícia, ou entre gangs. Ter-nos-íamos apercebido de que
aquele rapaz de cor, que é incrivelmente inteligente não teve as mesmas
oportunidades que o rapaz branco, filho de um médico. Ter-nos-íamos apercebido,
de que aquele menino com quem todos os outros gozam por andar sempre com os
mesmos ténis, foi vítima das medidas políticas instauradas no nosso país, que
levaram muitas famílias ao desemprego, e posteriormente à falência,
sobrevivendo com a ajuda de vizinhos e bancos alimentares. Ter-nos-íamos
apercebido de que aquele homem que baleou três pessoas, o fez não por escolha,
mas porque se não o fizesse ele morreria, ou seria perseguido para o resto da
vida, ou a sua família estaria em permanente risco.
A verdade, ou aquilo que
considero ser verdade, pois se o é realmente isso não sei, é que é intrínseco
ao ser humano, julgar qualquer pessoa sem ter conhecimentos do seu passado ou
presente, isto porque o ser humano trava uma diária batalha interior. A verdade
é que o ser humano julga sem conhecimento na matéria.
Hoje acho fúteis os desabafos de
alguém que o seu relacionamento amoroso acabou, ou de alguém que se chateou com
a sua melhor amiga. Assombra-me a superficialidade do mundo, assombram-me as
futilidades das revistas que contam a história da senhora famosa que pôs silicone
no seu peito, enquanto tantas outras vozes com incríveis histórias de vida para
contar, são silenciadas, por o mundo achar que por estas pessoas serem pobres
ou viverem em bairros sociais não têm o direito de viver. Existem pessoas neste
mundo que não vivem, apenas se limitam a sobreviver, travando uma batalha
diária pela sua sobrevivência, tendo medo de ser espancados como são dia após
dia, ou de serem baleados como outrora o foram. E no entanto, os políticos e os
meios de comunicação, ou as pessoas com um estatuto social mais elevado
acham-se no direito de julgar estas pessoas, sem conhecerem a sua história.
Porque não vão os políticos aos bairros socias verem a realidade em que muitas
pessoas vivem, em vez de se limitarem a fazer discursos ocos e pomposos?
Neste momento, enquanto me
encontro a escrever, encontro-me a pensar, e questiono-me: neste momento
enquanto eu estou a escrever no meu computador que tive a possibilidade de
comprar, ou enquanto alguém passa umas férias descansadas num hotel de seis
estrelas no Dubai, quantas pessoas estão com medo d sair à rua? Ou quantas
pessoas estão a morrer neste momento? Quantas pessoas estão a ser espancadas?
Ou a ver a sua casa ser hipotecada pelo banco? Quantas pessoas envergonhadas
pela sua desgraça, se dirigem ao banco alimentar, para comer? Ou quantas
mulheres continuam a viver perseguidas pelo facto de não poderem mostrar mais
parte nenhuma do seu corpo a não ser os seus olhos, que tanta tristeza revelam?
Quantas crianças estão a ser escravizadas em países sub-desenvolvidos? Quantas
mulheres vendem o seu corpo para alimentar os seus filhos? Quantas mulheres
estão a ser obrigadas a vender o corpo, porque foram raptadas por uma rede de
prostituição? Quantos rapazes estão neste momento a vender droga para ajudar a
sua família? Quantas pessoas se encontram desesperadas a ponto de cometerem
suicídio? Quantas pessoas se encontram desesperadas, sentindo-se perdidas neste
mundo, considerando que não existe qualquer esperança? Quantas crianças estão a
morrer à fome ou à sede? Quantas pessoas estão a ser julgadas devido à sua cor
neste momento?
Há tanta coisa a acontecer neste
pequeno grande mundo, no qual cada um de nós desempenha o seu papel. E no
entanto, o ser humano permanece vazio, cheio de futilidades e julgamentos, como
se todo o resto do mundo para ele não significasse nada.
E que tal pararmos um pouco para
pensar, que o futuro é um mistério, e que o que hoje desvalorizamos por estar a
acontecer a outra pessoa, pode vir a acontecer-nos a nós. Comparado com o
tamanho do mundo em que vivemos, o ser humano é uma formiga, no entanto, sendo
os únicos animais no planeta com capacidade de raciocinar e questionar-se a si
próprio, somos capazes de ter um coração que ilumina o mundo inteiro. A
verdade, é que cada um de nós pode fazer a diferença, começando por ajudar
alguém, ouvir alguém, conhecer a história de alguém. Não julguemos sem
conhecer… Porque apesar de não podermos escolher onde nascemos, podemos escolher
como viver a nossa vida, e como mudar a vida de alguém. A capacidade mais
fascinante do ser humano, é poder sempre ser melhor, e mudar aquilo que
considera ser errado.