domingo, 16 de dezembro de 2012


Não sou a voz da verdade, nem tento ser a voz da razão. Sou a voz de ninguém, que conta a história de alguém. Sou a voz daqueles cujas vozes são silenciadas, por alguém não querer que sejam ouvidas. Sou a voz daqueles que choram no silêncio da noite, enquanto escondem a dor na confusão do dia. Sou a voz daqueles que se escondem deles próprios. Sou a voz daqueles cuja realidade é tão dolorosa que não aguentam viver nela. Sou a voz daqueles que travam uma luta diária pela sua sobrevivência. Sou a voz daqueles cuja sociedade julga e isola, por falta de conhecimento e compreensão.

Muitos são os que nascem na luz, e alcançam a sombra. Mas poucos são os que atingem a luz, quando nascem na sombra. Muitos são os que vivem na luz, e se perdem na escuridão. Muitos são os que a vida puxa para a escuridão. Poucos são os que têm a força suficiente para se manter na luz, quando vivem rodeados de sombra.

Muitos são os que escolhem facilmente evitar, quando deveriam enfrentar. Muitos são os que escolhem esquecer, quando deveriam perdoar. Muitos são os que se limitam a sobreviver, quando deveriam de viver.

Criam-se ressentimentos, surgem traumas, instalam-se recalcamentos. Torna-se o Homem um ser desumanizado.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012


 
 
Ao longo do tempo, tenho vindo a observar os desconcertos do mundo, as divisões que foram criadas no mundo ao longo do tempo. Hoje as pessoas são julgadas e divididas em várias categorias, apenas pela sua aparência, cor, estatuto social, maneira de vestir, penteado, o que calça, como cheira. Tudo serve de pretexto para se dar início a um julgamento apressado. Mas será que a aparência define um ser humano. Será que só pelo seu aspecto o conhecemos realmente? Será que parámos para pensar um segundo, na razão pela qual um individuo se apresenta de uma certa forma? Na maior parte dos casos não, porque se o tivéssemos feito, ter-nos-íamos apercebido de que essa pessoa não escolheu a família nem o sítio onde nasceu. Ter-nos-íamos apercebido de que talvez aquela rapariga que parece invisível para toda a gente, afinal tem uma história para contar. Ter-nos-íamos apercebido de que aquela criança rebelde, de que todos chamam de malcriada, está a gritar por ajuda sem que ninguém a oiça. Ter-nos-íamos apercebido de que aquela rapariga que todos invejam pelo seu sorriso, está apenas a esconder uma vida de violência, que a levou a abafar o seu choro na almofada, para que ninguém a ouvisse. Ter-nos-íamos apercebido de que aquele rapaz que todos julgam por estar preso, teve uma vida de caos e miséria, que vira a sua mãe ser espancada todos os dias. Ter-nos-íamos apercebido de que aquele rapaz que finge não ter medo de nada, nem ninguém passou a vida a ver amigos e familiares a morrerem vítimas de confrontos com a polícia, ou entre gangs. Ter-nos-íamos apercebido de que aquele rapaz de cor, que é incrivelmente inteligente não teve as mesmas oportunidades que o rapaz branco, filho de um médico. Ter-nos-íamos apercebido, de que aquele menino com quem todos os outros gozam por andar sempre com os mesmos ténis, foi vítima das medidas políticas instauradas no nosso país, que levaram muitas famílias ao desemprego, e posteriormente à falência, sobrevivendo com a ajuda de vizinhos e bancos alimentares. Ter-nos-íamos apercebido de que aquele homem que baleou três pessoas, o fez não por escolha, mas porque se não o fizesse ele morreria, ou seria perseguido para o resto da vida, ou a sua família estaria em permanente risco.

A verdade, ou aquilo que considero ser verdade, pois se o é realmente isso não sei, é que é intrínseco ao ser humano, julgar qualquer pessoa sem ter conhecimentos do seu passado ou presente, isto porque o ser humano trava uma diária batalha interior. A verdade é que o ser humano julga sem conhecimento na matéria.

Hoje acho fúteis os desabafos de alguém que o seu relacionamento amoroso acabou, ou de alguém que se chateou com a sua melhor amiga. Assombra-me a superficialidade do mundo, assombram-me as futilidades das revistas que contam a história da senhora famosa que pôs silicone no seu peito, enquanto tantas outras vozes com incríveis histórias de vida para contar, são silenciadas, por o mundo achar que por estas pessoas serem pobres ou viverem em bairros sociais não têm o direito de viver. Existem pessoas neste mundo que não vivem, apenas se limitam a sobreviver, travando uma batalha diária pela sua sobrevivência, tendo medo de ser espancados como são dia após dia, ou de serem baleados como outrora o foram. E no entanto, os políticos e os meios de comunicação, ou as pessoas com um estatuto social mais elevado acham-se no direito de julgar estas pessoas, sem conhecerem a sua história. Porque não vão os políticos aos bairros socias verem a realidade em que muitas pessoas vivem, em vez de se limitarem a fazer discursos ocos e pomposos?

 

Neste momento, enquanto me encontro a escrever, encontro-me a pensar, e questiono-me: neste momento enquanto eu estou a escrever no meu computador que tive a possibilidade de comprar, ou enquanto alguém passa umas férias descansadas num hotel de seis estrelas no Dubai, quantas pessoas estão com medo d sair à rua? Ou quantas pessoas estão a morrer neste momento? Quantas pessoas estão a ser espancadas? Ou a ver a sua casa ser hipotecada pelo banco? Quantas pessoas envergonhadas pela sua desgraça, se dirigem ao banco alimentar, para comer? Ou quantas mulheres continuam a viver perseguidas pelo facto de não poderem mostrar mais parte nenhuma do seu corpo a não ser os seus olhos, que tanta tristeza revelam? Quantas crianças estão a ser escravizadas em países sub-desenvolvidos? Quantas mulheres vendem o seu corpo para alimentar os seus filhos? Quantas mulheres estão a ser obrigadas a vender o corpo, porque foram raptadas por uma rede de prostituição? Quantos rapazes estão neste momento a vender droga para ajudar a sua família? Quantas pessoas se encontram desesperadas a ponto de cometerem suicídio? Quantas pessoas se encontram desesperadas, sentindo-se perdidas neste mundo, considerando que não existe qualquer esperança? Quantas crianças estão a morrer à fome ou à sede? Quantas pessoas estão a ser julgadas devido à sua cor neste momento?

Há tanta coisa a acontecer neste pequeno grande mundo, no qual cada um de nós desempenha o seu papel. E no entanto, o ser humano permanece vazio, cheio de futilidades e julgamentos, como se todo o resto do mundo para ele não significasse nada.

E que tal pararmos um pouco para pensar, que o futuro é um mistério, e que o que hoje desvalorizamos por estar a acontecer a outra pessoa, pode vir a acontecer-nos a nós. Comparado com o tamanho do mundo em que vivemos, o ser humano é uma formiga, no entanto, sendo os únicos animais no planeta com capacidade de raciocinar e questionar-se a si próprio, somos capazes de ter um coração que ilumina o mundo inteiro. A verdade, é que cada um de nós pode fazer a diferença, começando por ajudar alguém, ouvir alguém, conhecer a história de alguém. Não julguemos sem conhecer… Porque apesar de não podermos escolher onde nascemos, podemos escolher como viver a nossa vida, e como mudar a vida de alguém. A capacidade mais fascinante do ser humano, é poder sempre ser melhor, e mudar aquilo que considera ser errado.

 

sábado, 26 de maio de 2012

Subjectividade da estética

 Vislumbro um vulto no espelho. É o reflexo do meu ser. Todos os dias vislumbro o mesmo reflexo, no entanto nem todos os dias contemplo a mesma beleza. Certos dias contemplo uma beleza divinal, que me faz caminhar sobre a água. Outros dias sinto-me como se devesse tornar-me invisível, para que ninguém reparasse na ausência da minha beleza. Ora se nunca deixo de ser quem sou, se nunca deixo de ver com os mesmos olhos, então porque será que o meu conceito de beleza se altera consoante os dias? Sim, porque a beleza é nada mais nada menos que um conceito definido consoante o tempo em que se vive.  Houve tempos em que as mulheres se escondiam sobre a sombra de um guarda-sol carregado pela sua leal criada, de modo a evitar que a sua pele fosse atingida pelos raios de sol. Isto porque nessa altura quanto mais clara fosse a sua pele, mais bonita seria a mulher. Com o passar do tempo esse conceito de beleza foi erradicado, dando lugar a um outro, a moda de quanto mais bronzeada fosse a mulher mais beleza lhe seria atribuída. Noutras comunidades a beleza da mulher deriva das marcas que lhe são gravadas no corpo, a sangue frio, é assim considerada a mais bonita a que mais marcas tem.
Isto leva-me à eterna questão: Será a beleza subjectiva? Ou um conceito universal plantado em nós pela sociedade em que estamos inseridos?
É certo que aquilo que um ser considera bonito, outro pode não o considerar, no entanto é de louvar o papel que a sociedade representa naquilo que os nossos olhos consideram "bonito".

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Acaricia-me no calor da noite, olha para mim quando estiver a dormir, dá-me a tua mão quando estiver presa nos meus mais profundos medos, acaricia o meu cabelo quando estiver fechada em pensamentos, limpa as minhas lágrimas quando elas tiverem necessidade de cair, oferece-me o teu casaco quando estiver a tremer de frio, oferece-te para me carregar quando estiver sem forças para continuar, sê a min...ha barreira contra todos aqueles que me quiserem derrubar, nao me julgues por palavras, visualiza as minhas atitudes, sê sincero sem que tenhas de ser rude, apresenta-te sem vergonha à minha família, sê capaz de me amar pelo que sou e não pelo que gostavas que fosse, elogia a minha inteligência e não o meu corpo, não tenhas vergonha de me dar a tua mão mesmo quando todos estiverem consomidos em invejosos olhares, não queiras ser o homem de um simples caso, sê o homem capaz de me levar ao altar, sê o homem capaz de não ter medo do amor, sê alguém que arrisca mesmo quando todos dizem que vais falhar, sê o homem capaz de me erguer acima de todas as mulheres que ja conheceste, sê homem para quando me convidares a sair não me levares ao mec, mas sim ao sítio onde gostavas que te levassem, corteja-me sem medo da minha reacção, leva-me a ver as estrelas e o luar sobre o mar.
Diz-me que sou uma mulher e mostra-me que és um homem!

terça-feira, 1 de maio de 2012

Destino

Percorremos perigosos caminhos, estranhos percursos, de forma quase instantânea, assim que a intuição se torna invasora da mente. Será o destino? Seremos nós domados por algo mais forte?

Por entre as minhas reflexões sobre a vida e o mundo, encontrei na minha mente a ideia de destino, foi então que me comecei a questionar em relação aos caminhos que seguimos. Já imensas pessoas debateram este tema, mas é realmente algo que me suscita a curiosidade, talvez nunca conseguirei chegar à verdade, mas o que seria do mundo sem um pouco de mistério?

Outrora correram boatos (nunca dogmas) por entre as bocas de cidadãos incapazes de invocar qualquer reflexão, ou crítica, que nós, seres humanos, eramos comandados por uma força maior, por algo que seríamos incapazes de algum dia superar, que nasceriamos com um percurso definido, e com uma personalidade ja traçada, com uma missão que deveriamos cumprir, até que voltassemos a nascer com uma nova missão.

Custa-me no entanto pensar que este processo de "reciclagem" seja real. Seremos nós apenas um meio para atingir um fim? Seremos nós apenas marionetas, acorrentadas a um destino que já nos foi atribuido? Não teremos portanto sentido de liberdade? Seremos, desta forma, seres sem qualquer forma de livre-arbitrio? Prefiro acreditar que não, prefiro escolher acreditar que existem vários caminhos para uma realidade, e que como seres imperfeitos somos obrigados a errar, aprender, e viver, mas jamais acorrentados a um destino já traçado.

Não sejamos vítimas de um destino, como os escritores romanticos o foram, sejamos livres, vivamos sem correntes, soltemo-nos da prisão a que tanto o destino nos tenta trancar.






Irmã


Dia 4 de Novembro de 2002 pelas 20:00h nasceu uma linda bebé, um raio de luz, uma estrela cadente, capaz de iluminar vidas.

Esta bebé, este bambi, rapidamente começou a crescer, cada dia era uma evolução. As suas pernas torneadas e pequeninas cambaleavam a cada passo, com um medo terrível que força lhe faltasse, e a queda se tornasse inevitável. Mas depressa aprendeu que a cada passo seu, uma mão a amparava, a mão de quem a amava.

Pouco ou nada demorou até que começasse a construir a sua personalidade adquirindo aspectos que mais a caracterizavam, sensível e teimosa, directa e amável, impaciente e persistente, de tamanha força capaz de ultrapassar qualquer desafio.

Hoje, passados 9 anos, a chama deste bambi continua mais forte que nunca, e eu tenho bem presente na minha memória, todas as suas traquinices, todas as suas brincadeiras. Lembro-me de quando discutíamos, ou de quando brincávamos às cozinhas, assim como das suas primeiras palavras e dos seus primeiros passos. Relembro-me do quão rápido o tempo passa, e do quão lento é o processo de socialização.

Não estou aqui hoje para te dizer apenas mais umas palavras bonitas. Estou aqui para te relembrar de quem és, da pessoa carismática em que te tornaste, e do ícone que és para todos nós.

Ao longo da vida os teus caminhos encher-se-ão de buracos, e pedras, sedentas de inveja a tentarem bloquear o teu caminho, mas mais uma vez aqui estaremos nós, todos o que te amam, para tapar esses buracos, e retirar essas pedras. Aqui te prometo que não deixarei que te percas, pois serei a luz que te indicará o caminho.

Camila, meu bambi, não te deixes nunca corromper pela escuridão deste mundo, não tenhas nunca medo de abraçar a luz, pois ela já faz parte de ti, tu própria já és a luz de muitas vidas, com o teu simples sorriso. Procura a tua essência, encontra a felicidade, pois essa luz que brilha nos teus olhos é a chave do teu enigma.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Pai

Ser pai não é apenas um processo biológico, ser pai é bem mais do que isso, ser pai é ensinar alguém a crescer, é ensinar a ver o mundo não só a preto e branco, é ensinar a compreender o abstrato e o complexo, é ser o exemplo que sempre quisemos ter, ser pai é ser a luz presente e constante, persistente e infinita na vida de alguém.

 Pisei os terrenos mais insólitos, andei por terras obscuras e frias, caminhei por afiadas areias, visualizei paisagens de ínfima peculariedade

 Mas então descobri uma parte do caminho do labirinto complicado que é a minha vida. Descobri o meu pai. Aprendi a amar sem qualquer rancor do passado, passei a ver o mundo nas suas verdadeiras cores, aprendi a ouvir os passáros, e a sentir a natureza. Pousei os pés no chão, senti a energia a fluir, andei sobre a água dos grandes mares e oceanos, conheci o cheiro de cada uma das flores existentes, visualizei os mais maravilhosos cenários de paternidade e afinidade. Senti a água a percorrer todo o meu corpo, a isolar a minha mente e suscitar a minha alma, senti que gotas de água escorregavam pela minha cara, e envolviam os meus lábios, enquanto deixavam um rasto de mágoa e tristeza que depressa foi substituido por amor e natureza, senti o vento a abraçar-me e um luz a iluminar-me. Não era Deus, mas sim o Homem mais perfeito que alguma vez conheci, o meu PAI.