segunda-feira, 3 de setembro de 2012


 
 
Ao longo do tempo, tenho vindo a observar os desconcertos do mundo, as divisões que foram criadas no mundo ao longo do tempo. Hoje as pessoas são julgadas e divididas em várias categorias, apenas pela sua aparência, cor, estatuto social, maneira de vestir, penteado, o que calça, como cheira. Tudo serve de pretexto para se dar início a um julgamento apressado. Mas será que a aparência define um ser humano. Será que só pelo seu aspecto o conhecemos realmente? Será que parámos para pensar um segundo, na razão pela qual um individuo se apresenta de uma certa forma? Na maior parte dos casos não, porque se o tivéssemos feito, ter-nos-íamos apercebido de que essa pessoa não escolheu a família nem o sítio onde nasceu. Ter-nos-íamos apercebido de que talvez aquela rapariga que parece invisível para toda a gente, afinal tem uma história para contar. Ter-nos-íamos apercebido de que aquela criança rebelde, de que todos chamam de malcriada, está a gritar por ajuda sem que ninguém a oiça. Ter-nos-íamos apercebido de que aquela rapariga que todos invejam pelo seu sorriso, está apenas a esconder uma vida de violência, que a levou a abafar o seu choro na almofada, para que ninguém a ouvisse. Ter-nos-íamos apercebido de que aquele rapaz que todos julgam por estar preso, teve uma vida de caos e miséria, que vira a sua mãe ser espancada todos os dias. Ter-nos-íamos apercebido de que aquele rapaz que finge não ter medo de nada, nem ninguém passou a vida a ver amigos e familiares a morrerem vítimas de confrontos com a polícia, ou entre gangs. Ter-nos-íamos apercebido de que aquele rapaz de cor, que é incrivelmente inteligente não teve as mesmas oportunidades que o rapaz branco, filho de um médico. Ter-nos-íamos apercebido, de que aquele menino com quem todos os outros gozam por andar sempre com os mesmos ténis, foi vítima das medidas políticas instauradas no nosso país, que levaram muitas famílias ao desemprego, e posteriormente à falência, sobrevivendo com a ajuda de vizinhos e bancos alimentares. Ter-nos-íamos apercebido de que aquele homem que baleou três pessoas, o fez não por escolha, mas porque se não o fizesse ele morreria, ou seria perseguido para o resto da vida, ou a sua família estaria em permanente risco.

A verdade, ou aquilo que considero ser verdade, pois se o é realmente isso não sei, é que é intrínseco ao ser humano, julgar qualquer pessoa sem ter conhecimentos do seu passado ou presente, isto porque o ser humano trava uma diária batalha interior. A verdade é que o ser humano julga sem conhecimento na matéria.

Hoje acho fúteis os desabafos de alguém que o seu relacionamento amoroso acabou, ou de alguém que se chateou com a sua melhor amiga. Assombra-me a superficialidade do mundo, assombram-me as futilidades das revistas que contam a história da senhora famosa que pôs silicone no seu peito, enquanto tantas outras vozes com incríveis histórias de vida para contar, são silenciadas, por o mundo achar que por estas pessoas serem pobres ou viverem em bairros sociais não têm o direito de viver. Existem pessoas neste mundo que não vivem, apenas se limitam a sobreviver, travando uma batalha diária pela sua sobrevivência, tendo medo de ser espancados como são dia após dia, ou de serem baleados como outrora o foram. E no entanto, os políticos e os meios de comunicação, ou as pessoas com um estatuto social mais elevado acham-se no direito de julgar estas pessoas, sem conhecerem a sua história. Porque não vão os políticos aos bairros socias verem a realidade em que muitas pessoas vivem, em vez de se limitarem a fazer discursos ocos e pomposos?

 

Neste momento, enquanto me encontro a escrever, encontro-me a pensar, e questiono-me: neste momento enquanto eu estou a escrever no meu computador que tive a possibilidade de comprar, ou enquanto alguém passa umas férias descansadas num hotel de seis estrelas no Dubai, quantas pessoas estão com medo d sair à rua? Ou quantas pessoas estão a morrer neste momento? Quantas pessoas estão a ser espancadas? Ou a ver a sua casa ser hipotecada pelo banco? Quantas pessoas envergonhadas pela sua desgraça, se dirigem ao banco alimentar, para comer? Ou quantas mulheres continuam a viver perseguidas pelo facto de não poderem mostrar mais parte nenhuma do seu corpo a não ser os seus olhos, que tanta tristeza revelam? Quantas crianças estão a ser escravizadas em países sub-desenvolvidos? Quantas mulheres vendem o seu corpo para alimentar os seus filhos? Quantas mulheres estão a ser obrigadas a vender o corpo, porque foram raptadas por uma rede de prostituição? Quantos rapazes estão neste momento a vender droga para ajudar a sua família? Quantas pessoas se encontram desesperadas a ponto de cometerem suicídio? Quantas pessoas se encontram desesperadas, sentindo-se perdidas neste mundo, considerando que não existe qualquer esperança? Quantas crianças estão a morrer à fome ou à sede? Quantas pessoas estão a ser julgadas devido à sua cor neste momento?

Há tanta coisa a acontecer neste pequeno grande mundo, no qual cada um de nós desempenha o seu papel. E no entanto, o ser humano permanece vazio, cheio de futilidades e julgamentos, como se todo o resto do mundo para ele não significasse nada.

E que tal pararmos um pouco para pensar, que o futuro é um mistério, e que o que hoje desvalorizamos por estar a acontecer a outra pessoa, pode vir a acontecer-nos a nós. Comparado com o tamanho do mundo em que vivemos, o ser humano é uma formiga, no entanto, sendo os únicos animais no planeta com capacidade de raciocinar e questionar-se a si próprio, somos capazes de ter um coração que ilumina o mundo inteiro. A verdade, é que cada um de nós pode fazer a diferença, começando por ajudar alguém, ouvir alguém, conhecer a história de alguém. Não julguemos sem conhecer… Porque apesar de não podermos escolher onde nascemos, podemos escolher como viver a nossa vida, e como mudar a vida de alguém. A capacidade mais fascinante do ser humano, é poder sempre ser melhor, e mudar aquilo que considera ser errado.

 

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